Um levantamento sobre os semáforos sonoros de São Paulo identificou 1.382 equipamentos na cidade e nenhum nas periferias. Os dispositivos estão concentrados em 17 dos 96 distritos paulistanos.
Os dados foram obtidos da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte de São Paulo após pedido feito pela Lei de Acesso à Informação (LAI), em agosto de 2026. As botoeiras sonoras auxiliam pessoas com deficiência visual na travessia de ruas.
Hugo Luiz Vieira do Carmo, 33, mora no Parque Esperança, na zona leste, e relata dificuldades para atravessar avenidas. Eduardo Silva Ferreira, 16, vive no Jardim das Nações, em Diadema, e também enfrenta barreiras em seus deslocamentos.

Os relatos mostram como a distribuição dos equipamentos se relaciona à mobilidade de pessoas com deficiência visual. A reportagem também aborda obstáculos em calçadas e no transporte, além da falta de resposta da Secretaria sobre os critérios usados para escolher os locais de instalação.
Concentração das botoeiras em distritos centrais
De acordo com o levantamento feito com dados da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, sete em cada dez equipamentos estão em nove distritos: Vila Clementino, Vila Mariana, Santa Cecília, Bela Vista, Itaim Bibi, Ipiranga, Sé, República e Bom Retiro. A concentração mostra que os semáforos sonoros estão distribuídos de forma desigual entre as regiões da capital.
A Vila Mariana reúne 341 botões de acionamento, o maior total entre os distritos listados. Dentro dela, a Vila Clementino concentra 167 botoeiras e abriga o centro de tratamento para pessoas com deficiência visual Dorina Nowill.
No distrito do Ipiranga, onde fica o Colégio Vicentino de Cegos Padre Chico, há 106 dispositivos, segundo os dados do levantamento. Ao menos 44 estão nas proximidades da escola, que oferece educação escolar gratuita e adaptada para pessoas com deficiência visual.
Relatos sobre travessias e deslocamentos
Frequentador do Centro Educacional Unificado (CEU) de São Mateus, Hugo Luiz Vieira do Carmo caminha cerca de dez minutos desde sua casa até o local. Com bengala e orientação pelo piso tátil, ele consegue ir sozinho a atividades de esporte, lazer e socialização; sua deficiência visual foi causada por retinopatia da prematuridade.
Para Hugo, atravessar avenidas é uma preocupação quando precisa sair do bairro para consultas médicas em Santo André ou visitar parentes no Jardim Colonial. Ele relata que, sem sinal sonoro e sem alguém por perto para ajudar, não sabe quando o semáforo está aberto para pedestres.
Eduardo Silva Ferreira, estudante de 16 anos, tem 10% da visão preservada e albinismo. Ele diz que o entorno do Colégio Vicentino, no Ipiranga, conta com adaptações, mas que a realidade muda na periferia: “Na periferia não tem tanta adaptação, mas perto dos bairros nobres, da elite, têm mais”.
O Programa Ligado, fornecido pelo governo estadual, leva Eduardo à escola, mas atividades extracurriculares podem exigir outros deslocamentos. Ele também vai às terapias às quartas-feiras, em um centro de reabilitação em Santo André, sempre acompanhado dos pais; sobre atravessar ruas, relata medo de não enxergar os carros que se aproximam.
Barreiras de acessibilidade além dos semáforos
Além da falta de botoeiras, Eduardo conta que já caiu por causa de um desnível na calçada e avalia usar uma bengala verde, destinada a pessoas com baixa visão ou visão parcial. “Me machuquei todo”, relatou sobre a queda.
Hugo também aponta obstáculos no caminho, como buracos, calçadas desniveladas e lixo descartado em locais inadequados. Ele relata que há trechos em que o piso tátil conduz a pessoa até uma parede, sem continuidade segura do trajeto.
Entre as reivindicações dos entrevistados estão calçadas regulares, corrimãos em escadões, piso tátil, avisos audíveis nos pontos de ônibus e elevadores nas estações de metrô, além de portas de segurança nas plataformas de trens e metrôs. Hugo também pede que o Expresso Tiradentes anuncie o nome das paradas, como ocorre no sistema tecnológico dos trólebus modernos, e que pessoas com deficiência sejam ouvidas na implantação de recursos de acessibilidade.

